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sábado, 4 de junho de 2016

CONTOS ESPÍRITA//CAROLINA E AGENOR

CAROLINA E AGENOR
– Não posso mais! Estou resolvida!
– Não diga isso. Fique mais calma. Somos espíritas e…
– Não, Agenor! Não quero mais filhos. Nem esse e nem a possibilidade de outros. Estou decidida.
– Se houvesse realmente necessidade… Mas você está forte, robusta… Isso é meia morte. Pense bem. Olhe o “deixai vir a mim os pequeninos!…”.
– Não. É muita gente que faz isso, por que não posso fazer? Vou agora ao hospital tratar de meu caso… Estou resolvida.
Assim falando, Carolina ralhou com os três filhos pequenos e deixou a casa, nervosa, acompanhada de Agenor.

– Quero falar com o doutor. Ele está?
– Minha senhora, ele está operando agora. Não deve demorar muito.
Nisso, um senhor ao lado pergunta:
– Quem ele está operando? É uma senhora loura?
E o porteiro, respeitoso, respondeu em voz baixa:
– Não, meu senhor. É uma senhora que acaba de chegar perdendo muito sangue. É alguma coisa de aborto. Está passando muito mal.
Agenor olhou significativamente para Carolina…

– A senhora loura é sua parenta? – pergunta Carolina, ao vizinho da poltrona.
– Sim. É minha tia.
– De que se vai operar?
– Ela, minha senhora, desde que perdeu o último filho, está perturbada. Vão fazer uma operação na cabeça dela, para ver se melhora o gênio.
Agenor voltou a olhar expressivamente para Carolina…

Eis que passam dois homens em avental branco, e Carolina, atenta ao movimento em torno, na expectativa de falar ao facultativo, ouviu, de relance:
– As cifras estatísticas de câncer uterino são avultadas – disse um.
– E aqui, na região, a incidência é grande? – pergunta o outro.
– Muitíssimo. Basta ver que a enfermaria feminina sempre está com três a quatro casos…
Agenor, ainda uma vez, olhou incisivamente para Carolina…

Carolina levanta-se, resoluta.
Agenor segue.
Vão transpondo a porta principal da casa de saúde, quando o solícito porteiro inquire:
– Não vai esperar, minha senhora?
– Não, meu amigo. O doutor está demorando. Preciso cuidar das crianças. Obrigada. Até logo.
– Então, Calu, em que ficamos? – pergunta Agenor, ao descer a rampa do hospital.
E Carolina responde:
– Não, Agenor, dos males o menor. Fico assim mesmo…
Waldo Vieira (médium)
Hilário Silva (espírito)
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MESMO FERIDO
O rapaz fora rudemente esbofeteado num baile. Em sã consciência, não sentia culpa alguma. Nada fizera que pudesse ofender. Por mera desconfiança, o agressor esmurrara-lhe o rosto. “Covarde, covarde” – haviam dito os circunstantes.
Ele, porém, limpando a face sanguinolenta, compreendeu que, desarmado, não seria prudente medir forças. Jurara, porém, vingar-se. E, agora, munido de um revólver, aguardava ocasião. Um amigo, no entanto, percebendo-lhe a alma sombria, instou muito e conduziu-o a uma reunião da Doutrina Espírita.
Desinteressado, ouviu preces e pregações, comentários e apontamentos edificantes.
Ao término da sessão, porém, um amigo espiritual, pela mão de um dos médiuns presentes, escreveu bela página sobre o perdão, na qual surgiam afirmações como estas:
– A justiça real vem de Deus.
– Ninguém precisa vingar-se.
– Mesmo ferido, serve e perdoa.
– A corrigenda do ofensor pode ser amanhã.
O jovem ouviu atentamente e saiu pensando, pensando…
Na manhã seguinte, topou, face a face, o desafeto, mas recordou a lição e conteve-se. Por uma semana se repetiu o reencontro, e, por sete vezes, freou-se prudentemente.
Dias depois, porém, retornado ao trabalho, encontra um enterro e descobre-se. Só então vem a saber que o grande esmurrador, aquele que o ferira, morrera na véspera, picado por escorpião.
Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espíritoLivro: Ideias e ilustrações
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SOLUÇÃO NATURAL
Os Espíritos benfeitores já não sabiam como atender à pobre senhora obsidiada.
Perseguidor e perseguida estavam mentalmente associados à maneira de polpa e casca no fruto.
Os amigos desencarnados tentaram afastar o obsessor, induzindo a jovem senhora a esquecê-lo, mas debalde.
Se tropeçava na rua, a moça pensava nele…
Se alfinetava um dedo em serviço, atribuía-lhe o golpe…
Se o marido estivesse irritado, dizia-se vitima do verdugo invisível…
Se a cabeça doía, acusava-o…
Se uma xícara espatifasse, no trabalho doméstico, imaginava-se atacada por ele…
Se aparecesse leve dificuldade econômica, transformava a prece em crítica ao desencarnado infeliz…
Reconhecendo que a interessada não encontrava libertação, por teimosia, os instrutores espirituais ligaram os dois – a doente e o acompanhante invisível – em laços fluídicos mais profundos, até que ele renasceu dela mesma, por filho necessitado de carinho e compaixão.
Os benfeitores descansaram.
O obsessor descansou.
A obsidiada descansou.
O esposo dela descansou.
Transformar obsessores em filhos, com a bênção da Providência Divina, para que haja paz nos corações e equilíbrio nos lares, muita vez é a única solução.
Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espírito
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FELIZ ENGANO
Amaro M. Silveira, homem de pouca cultura, mas de virtudes conhecidas, como sacerdote do lar, era o condutor seguro dos interesses familiares. Sabia ser pai, irmão e amigo dos frutos de sua carne.
Símbolo de dedicação fraternal, detinha a estima da comunidade em que vivia. Raros eram aqueles que não reconheciam a grandeza de sua alma. Era sempre visto distribuindo pão e carinho, sem arroubos de afetação. Como precioso agente da matemática divina, multiplicava alegria. Dividia a dor, somava esforços e diminuía dificuldades.
Na sociedade espírita a que se filiara, era padrão de pontualidade, responsabilidade no trato das revelações doutrinárias e permanente bom ânimo. Jamais alguém lhe anotara as ausências sem motivos nas sessões que freqüentava, ainda que o barro da rua lhe embaraçasse os passos e a borrasca desabasse ameaçadora. Nas mais insignificantes tarefas sua fé resplendia.
Invariavelmente, à noite, saturado de paz infinita e debaixo se intenso cansaço, punha-se a orar. Comovido, via-se rodeado de esmeraldinas cintilações e chorava agradecido, alimentando o desejo de conhecer o benfeitor que o abraçava e que à feição de um guardião amoroso lhe tutelava os passos, amparando-o nas lutas diárias.
Por muitas vezes, durante anos, o fenômeno se repetiu.
Cada vez mais feliz, Amaro não escondia o desejo sincero de beijar as mãos do venerável amigo que lhe garantia a vitória no Bem.
Até que um dia, a máquina incessante da vida, por solicitação do tempo implacável, determinou o seu retorno ao luminoso país da verdade.
Após orar, como sempre fizera na simplicidade de suas intenções, mentalizou a presença do companheiro celestial.
Não poderia esperar tamanha surpresa. Agora, liberto do fardo físico, verificava deslumbrado que o benfeitor era ele mesmo. As luzes que o rodeavam mais intensamente nos momentos culminantes da prece vinham de sua própria constituição perispiritual. Eram a expressão real e sublime do seu amor ao próximo. Eram a auréola radiosa de sua humildade que conquistara no serviço desinteressado com o Cristo.
Maria Abadia R. de Almeida  (Revista Espírita)
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ONDE ESTARÁ
A senhora, elegantemente trajada, comparece na portaria do lar espírita para buscar a criança que pretendia adotar.
– Quero perfilhar! – dizia a dama – Tomarei todas as providências, mas quero escolher.
E a diretora começou as apresentações.
– Esta não – falava a senhora, fitando doce menina de olhos escuros -, é morena demais.
E analisando uma por uma, continuava as apreciações:
– Esta não, tem jeito de serelepe…
– Este não, tem olhos de gato assustado…
– Este não, está remelento…
– Este também não, é um garoto de olhar muito frio…
– Esta não, é muito anêmica…
Findo o exame de trinta e dois pequeninos, a senhora perguntou:
– E os outros? Onde estará a criança que eu busco?
Mas a diretora respondeu com serenidade:
– Minha irmã, a senhora me perdoe, mas o nosso estoque acabou, e creio que agirá com acerto se procurar a sua encomenda no Céu, pois, nas condições que deseja, penso que somente encontrará a sua criança entre os anjos…
Waldo Vieira (médium)
Hilário Silva (espírito) Livro: Almas em Desfile
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DOENTES E DOENÇAS
O respeito aos doentes é dever inatacável, mas vale descrever a ligeira experiência para a nossa própria orientação.
Penetráramos o nosocômio, acompanhando um assistente espiritual que ingressava no serviço pela primeira vez, e, por isso mesmo era, ali, tão adventício em matéria de enfermagem, quanto eu próprio.
Atender a quatro irmãos encarnados sofredores, o nosso encargo inicial nas tarefas do magnetismo curativo. Designá-los-emos por números.
Em arejado aposento, abeiramo-nos deles, depois de curta oração.
O amigo de número um arfava em constrangedora dispnéia, suplicando em voz baixa:
– Valei-me, Senhor!… Ai Jesus!… Ai Jesus!… Socorrei-me!… Ó Divino Salvador!… Curai-me e já não desejarei no mundo outra coisa senão servir-vos!…
O segundo implorava, sob as dores abdominais em que se contorcia:
– Ó meu Deus, meu Deus!… Tende misericórdia de mim!… Concedei-me a saúde e procurarei exclusivamente a vossa vontade…
Aproximamo-nos do terceiro, que, mal agüentando tremenda cólica renal em recidiva, tartamudeava ao impacto de pesado suor:
– Piedade, Jesus!… Salvai-me!… Tenho mulher e quatro filhos… Salvai-me e prometo ser-vos fiel até a morte!…
Por fim, clamava o de número quatro, carregando severa crise de artrite reumatóide:
– Jesus! Jesus!… Ó Divino Médico!… Atendei-me!… Amparai-me!… Dai-me a saúde, Senhor, e dar-vos-ei a vida!…
Nosso orientador enterneceu-se. Comovia-nos, deveras, ouvir tão carinhosas referências a Deus e ao Cristo, tantos apelos com inflexão de confiança e ternura.
Sensibilizados, pusemo-nos em ação.
O chefe esmerou-se.
Exímio conhecedor de ondas e fluidos, consertou vísceras aqui, sanou disfunções ali, renovou células mais além e o resultado não se fez esperar. Recuperação quase integral para todos. Entramos em prece, agradecendo ao Senhor a possibilidade de veicular-lhe as bênçãos.
No dia imediato, quando voltamos ao hospital, pela manhã, o quadro era diverso.
Melhorados com segurança, os doentes já nem se lembravam do nome de Jesus.
O enfermo de número um se reportava, exasperado, ao irmão que faltara ao compromisso de visitá-lo na véspera:
– Aquele maldito pagará!… Já estou suficientemente forte para desancá-lo… Não veio como prometeu, porque me deve dinheiro e naturalmente ficará satisfeito em saber-me esquecido e morto…
O segundo esbravejava:
– Ora essa!… Por que me vieram perguntar se eu queria orações? Já estou farto de rezar… Quero alta hoje!… Hoje mesmo!… E se a situação em casa não estiver segundo penso, vai haver barulho grosso!
O terceiro reclamava:
– Quem falou aqui em religião? Não quero saber disso… Chamem o médico…
E gritando para a enfermeira que assomara à porta:
– Moça, se minha mulher telefonar, diga que sarei e que não estou…
O doente de número quatro vociferava para a jovem que trouxera o lanche matinal:
– Saia de minha frente com o seu café requentado, antes que eu lhe dê com este bule na cara!…
Atônitos, diante da mudança havida, recorremos à prece, e o supervisor espiritual da instituição veio até nós, diligenciando consolar-nos e socorrer-nos.
Após ouvir a exposição do mentor que se responsabilizara pelas bênçãos recebidas, esclareceu bem-humorado:
– Sim, vocês cometeram pequeno engano. Nossos irmãos ainda não se acham habilitados para o retorno à saúde, com o êxito desejável. Imprescindível baixar a taxa das melhoras efetuadas…
E, sem qualquer delonga, o superior podou energias aqui, diminuiu recursos ali, interferiu em determinados centros orgânicos mais além, e, com grande surpresa para o nosso grupo socorrista, os irmãos enfermos, com ligeiras alterações para a melhoria, foram restituídos ao estado anterior, para que não lhes viesse a ocorrer coisa pior.
Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito)  Livro: Idéias e Ilustrações
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OS MAIORES INIMIGOS
Certa feita, Simão Pedro perguntou a Jesus:
– Senhor, como saberei onde vivem nossos maiores inimigos? Quero combatê-los, a fim de trabalhar com eficiência pelo Reino de Deus.
Iam os dois de caminho entre Cafarnaum e Magdala, ao sol rutilante de perfumada manhã.
O Mestre ouviu e mergulhou-se em longa meditação.
Insistindo, porém, o discípulo, ele respondeu benevolamente:
– A experiência tudo revela no momento preciso.
– Oh! – exclamou Simão, impaciente – a experiência demora muitíssimo.
O Amigo Divino esclareceu, imperturbável:
– Para os que possuem “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, uma hora, às vezes, basta ao aprendizado de inesquecíveis lições.
Pedro calou-se, desencantado.
Antes que pudesse retornar às interrogações, notou que alguém se esgueirava por trás de velhas figueiras, erguidas à margem. O apóstolo empalideceu e obrigou o Mestre a interromper a marcha, declarando que o desconhecido era um fariseu que procurava assassiná-lo. Com palavras ásperas desafiou o viajante anônimo a afastar-se, ameaçando-o, sob forte irritação. E quando tentava agarrá-lo, à viva força, diamantina risada se fez ouvir. A suposição era injusta. Ao invés de um fariseu, foi André, o próprio irmão dele, quem surgiu sorridente, associando-se à pequena caravana.
Jesus endereçou expressivo gesto a Simão e obtemperou:
– Pedro, nunca te esqueças de que o medo é um adversário terrível.
Recomposto o grupo, não haviam avançado muito, quando avistaram um levita que recitava passagens da Tora e lhes dirigiu a palavra, menos respeitoso.
Simão inchou-se de cólera. Reagiu e discutiu, longe das noções de tolerância fraterna, até que o interlocutor fugiu, amedrontado.
O Mestre, até então silencioso, fixou no aprendiz os olhos muito lúcidos e inquiriu:
– Pedro, qual é a primeira obrigação do homem que se candidata ao Reino Celeste?
A resposta veio clara e breve:
– Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
– Terás observado a regra sublime, neste conflito? – continuou o Cristo, serenamente – recorda que, antes de tudo, é indispensável nosso auxílio ao que ignora o verdadeiro bem e não olvides que a cólera é um perseguidor cruel.
Mais alguns passos e encontraram Teofrasto, judeu grego dado à venda de perfumes, que informou sobre certo Zeconias, leproso curado pelo profeta nazareno e que fugira para Jerusalém, onde acusava o Messias com falsas alegações.
O pescador não se conteve. Gritou que Zeconias era um ingrato, relacionou os benefícios que Jesus lhe prestara e internou-se em longos e amargosos comentários, amaldiçoando-lhe o nome.
Terminando, o Cristo indagou-lhe:
– Pedro, quantas vezes perdoarás a teu irmão?
– Até setenta vezes sete – replicou o apóstolo, humilde.
O Amigo Celeste contemplou-o, calmo, e rematou:
– A dureza é um carrasco da alma.
Não atravessaram grande distância e cruzaram com Rufo Grácus, velho romano semiparalítico, que lhes sorriu, desdenhoso, do alto da liteira sustentada pelos escravos fortes.
Marcando-lhe o gesto sarcástico, Simão falou sem rebuços:
– Desejaria curar aquele pecador impenitente, a fim de dobrar-lhe o coração para Deus.
Jesus, porém, afagou-lhe o ombro e ajuntou:
– Por que instituiríamos a violência no mundo, se o próprio Pai nunca se impôs a ninguém?
E, ante o companheiro desapontado, concluiu:
– A vaidade é um verdugo sutil.
Daí a minutos, para repasto ligeiro, chegavam à hospedaria modesta de Aminadab, um seguidor das idéias novas.
À mesa, um certo Zadias, liberto de Cesaréia, se pôs a comentar os acontecimentos políticos da época. Indicou os erros e desmandos da Corte Imperial, ao que Simão correspondeu, colaborando na poda verbalística. Dignitários e filósofos, administradores e artistas de além-mar sofreram apontamentos ferinos. Tibério foi invocado com impiedosas recriminações.
Finda a animada palestra, Jesus perguntou ao discípulo se acaso estivera alguma vez em Roma.
O esclarecimento veio depressa:
– Nunca.
O Cristo sorriu e observou:
– Falaste com tamanha desenvoltura sobre o Imperador que me pareceu estar diante de alguém que com ele houvesse privado intimamente.
Em seguida, acrescentou:
– Estejamos convictos de que a maledicência é algoz terrível.
O pescador de Cafarnaum silenciou, desconcertado.
O Mestre contemplou a paisagem exterior, fitando a posição do astro do dia, como a consultar o tempo, e, voltando-se para o companheiro invigilante, acentuou, bondoso:
– Pedro, há precisamente uma hora procurava situar o domicilio de nossos maiores adversários. De então para cá, cinco apareceram, entre nós: o medo, a cólera, a dureza, a vaidade e a maledicência… Como reconheces, nossos piores inimigos moram em nosso próprio coração.
E, sorrindo, finalizou:
– Dentro de nós mesmos, será travada a guerra maior.
Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito) Livro: Luz Acima
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O GRANDE CAMINHO
Um homem de muita fé morava num vale extenso e triste e por que assinalasse amarga solidão, elevou-se em espírito ao Senhor e pediu-lhe, atormentado:
– Benfeitor Eterno, vejo-me vencido pelo desânimo… Que fazer para melhorar o ambiente em que respiro?
– Educa a terra em que foste localizado – aconselhou o Divino Orientador.
– Usa o alvião e o arado, a enxada e a semente e, em breve, o solo dar-te-á o pão e alegria.
O servo regressou e seguiu-lhe o conselho.
Com o aperfeiçoamento da gleba, porém, surgiram colonos variados e as rixas explodiram, na disputa dos terrenos em torno.
Alarmado, o devoto retornou ao Senhor e clamou:
– Inefável Amigo, melhorada a região a que dei minha ajuda, vieram os companheiros da Humanidade e com eles chegaram inquietantes enigmas. Não mais vivo só, entretanto, as feras da posse, os dragões do ciúme, as serpes do despeito e os monstros da inveja bramem e se arrastam junto de mim… Que fazer para o sustento da paz?
– Educa os irmãos que te cercam a experiência – determinou o magnânimo interpelado, e explica-lhes que o sol brilha para justos e injustos, que o trabalho sinceramente respeitado e bem dividido faz a riqueza de todos e que sem a cooperação fraternal o dever é um cárcere insuportável… Usa a escola e o livro, a palavra e a própria virtude! O tempo assegurar-te-á harmonia e vitória.
O crente agiu em consonância com o ensinamento recebido e, por que prosperasse o encanto social na colônia, desposou uma jovem que lhe parecia responder ao ideal de ventura, no entanto, com o casamento vieram os filhos e os problemas. A alma da companheira sofria incompreensível divisão entre ele e os rebentos do lar que o crivavam de pesares e preocupações.
Aflito, voltou à Amorosa Presença e solicitou:
– Todo Compassivo, tenho minh´alma sangrando de sofrimento… Como proceder para encontrar o equilíbrio, junto da mulher e dos filhos que me deste?
– Educa-os e alcançarás a bênção merecida, – disse-lhe o Abnegado Condutor. – Através de teus próprios exemplos, usa a boa vontade e a renúncia e atingirás, um dia, o fruto de preciosa compreensão.
O trabalhador desceu à Terra e atendeu à advertência. Contudo, com o crescimento da família, multiplicada agora em lares diversos, notou que os parentes padeciam, desarvorados, a visitação da enfermidade e da morte.
Agoniado, compareceu diante do Senhor e Implorou:
– Protetor Infatigável, estou conturbado, em pavoroso desalento… Os corações que me confiastes tremem de angústia e medo, ante a ventania gelada do túmulo… Que fazer para consolá-los e obter-lhes conformação?
– Educa-os para a vida, cujas provas são lições de subido valor – respondeu-lhe o Mentor Celeste, – Ensina-lhes que a doença é um gênio benfazejo e que o sepulcro é passagem para a imortalidade triunfante. Revela-lhes, porém, semelhantes verdades com a tua própria demonstração de coragem e submissão incessante à Infinita Sabedoria.
O homem tornou ao seu campo de luta e devotou-se à tarefa que lhe cabia com humildade e bom ânimo.
Quando o tempo lhe enrugou a face, alvejando-lhe os cabelos, fatigado ao peso das responsabilidades que trazia no coração, procurou o Senhor e implorou em lágrimas:
– Fiador de meus dias, compadece-te de mim!… Meu corpo agora é um instrumento cansado, sinto frio em meus ossos!… Tenho saudades de ti, Senhor!… Que fazer para transferir-me, em definitivo, para o Céu?
– Educa-te e raiará para teu espírito a luminosa libertação, educa-te e o próprio mundo te elevará à glória suprema da vida espiritual!
– Senhor, – ponderou o fiel devoto – ensinaram-me na Terra que fora da caridade não há salvação e sempre respeitei a caridade, executando-te as ordens divinas… Ter-se-iam enganado os teus mensageiros no mundo?
O Mestre sorriu e obtemperou:
– Os emissários celestiais não se equivocaram na afirmativa. Realmente, fora da caridade não há salvação, mas fora da educação não há caridade bem conduzida…
E por que o crente meditasse em lacrimoso silêncio, o Senhor concluiu:
– A caridade é a chave que abre as portas do Céu, mas a educação é o grande caminho que conduz até ele…
Foi então que o aprendiz leal voltou às obrigações que lhe competiam no mundo e consagrou o resto da existência ao serviço de educar-se, com o que passou a educar os outros com mais segurança.
Chico Xavier (médium)
IrmãoX(espírito)                                                                                                                                                                                                         Fonte: Livro: Relatos da Vida
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 DEVER CRISTÃO
Rossi e Alves eram diretores de conhecido templo espírita e se davam muito bem na vida particular. Afinidade profunda. Amizade recíproca. Sempre juntos nas boas obras, integravam-se perfeitamente no programa do bem.
Alves, com desapontamento, passou a saber que Rossi, nas três noites da semana sem atividades doutrinárias, era visto penetrando a porta de uma casa evidentemente suspeita, lugar tristemente adornado para encontros clandestinos de casais transviados.
Persistindo semelhante situação por mais de um mês, Alves, certa noite, informado de que o amigo entrara na casa referida, veio esperá-lo à saída.
Dez, onze, meia-noite…
Alguns minutos depois de zero hora, Rossi saiu calmo e o amigo abordou-o.
– Meu caro – advertiu Alves sisudo -, não posso vê-lo reiteradamente neste lugar. Você é casado, pai de família e, além de tudo, carrega nos ombros a responsabilidade de mentor em nossa Casa. Nada podemos condenar, mas você não ignora que álcool e entorpecentes, aí dentro, andam em bica…
Rossi coçou a cabeça num gesto característico e observou:
– Não há nada. Estou apenas cumprindo um dever cristão.
– Dever cristão?
– Sim, a filha de um dos meus melhores amigos está freqüentando este círculo. Jovem inexperiente. Ave desprevenida em furna de lobos. Enganada por lamentável explorador de meninas, acreditou nele… Mas a batalha está quase ganha. Convidei-a a pensar. Há mais de um mês prossegue a luta. Hoje, porém, viu com os próprios olhos o logro de que é vítima. Acredito que amanhã surgirá renovada…
E ante os olhos desconfiados do amigo:
– Você sabe. É preciso agir, sem rumor, sem escândalo. Quem sabe? Talvez em futuro próximo a invigilante pequena possa encontrar companheiro digno. E ser mãe respeitada.
Alves riu-se às pampas, de maneira escarninha, e falou:
– Vou ver se é verdade.
– Não, não! Não vá! – pediu Rossi, em súplica ansiosa.
– Tem medo de ser apanhado em mentira? -disse Alves, com a suspeita no rosto.
E sem mais nem menos entrou casa à dentro, encontrando, num pequeno salão, sua própria filha chorando ao pé de um cavalheiro desconhecido…
Waldo Vieira ( médium )
Hilário Silva ( espírito ) Livro:  A vida escreve
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A MENTIRA
Sei da história de um pastor americano ou escocês (já não me lembro o hemisfério desse conto) o qual, uma vez, ao largo e atento auditório que costumava ouvi-lo, fez saber que no dia seguinte iria falar sobre o pecado da mentira.
– Vou pregar amanhã sobre a mentira, advertiu o bom pastor. Peço, porém, a todos os meus queridos ouvintes que, para melhor preparação do que irei dizer, leiam todo o capitulo dezessete de São Marcos. Considero indispensável essa leitura prévia.
No dia seguinte, compareceram todos. E logo, o pastor inquiriu previamente.
– Aqueles que leram o capitulo 17 de São Marcos, conforme a minha recomendação, queiram levantar-se.
Levantaram-se todos como um só homem. E o pastor prosseguiu:
– Sois vós realmente os verdadeiros ouvintes do meu sermão de hoje sobre a mentira. Porque, em verdade, não existe o capitulo dezessete. O Evangelho de São Marcos tem apenas 16 capítulos.
Antônio F. Rodrigues                                                                                                                                                                    
Livro: Antologia Espírita e Popular – Mensagens dos Mestres
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A LENDA DAS COTOVIAS
Certa feita, os emissários benditos, por designação celestial, foram à floresta com a tarefa de visitarem os ninhos de todas as espécies de aves para distribuir, a cada agrupamento, as suas missões junto à Terra.
Todas as aves foram agraciadas com tamanho e beleza, visão e precisão na caça pela sobrevivência e perfeição no vôo.
Enquanto os trabalhadores do Senhor cumpriam suas tarefas, alguns pássaros envaideceram-se e festejavam demonstrando uns aos outros o que haviam recebido.
As cotovias, porém, sofreram toda a sorte de desprezo e escárnio. Diziam que elas não possuíam importância para Deus, pois os melhores “dons” haviam sido atribuídos aos mais experientes, maiores e melhores. De que serviria, então, o dom do canto diante dos grandes desafios da vida?
Após certo tempo, os emissários retornaram à floresta com o intuito de verificarem como foram utilizados os “dons” que haviam sido depositados naqueles corações. Alguns os utilizaram de forma digna e correta, porém outros desvirtuaram seus caminhos e entregaram-se totalmente à vaidade.
Antes de partirem, os representantes divinos encontraram as cotovias resignadas e aconchegadas em seus ninhos. Ao se aproximarem, as pequeninas derramavam lágrimas e, emocionadas, cantavam corajosamente em perfeita afinação, louvando e agradecendo todas as lições que aprendiam dia a dia com as dificuldades do mundo e com os desafios de enfrentar o impiedoso prado, fazendo suas dores converterem-se em melodias, sem lamento ou reclamações, até o momento de suas mortes.
Tamanha era a força daquele canto que todos paravam para escutá-lo e, assim, sentiam suas almas tocadas por profundo alívio e alegria.
Embevecidos pela majestosa cantoria, os trabalhadores celestes reconheceram o esforço daquelas humildes criaturas e, como recompensa, quando libertas dos infortúnios do corpo emplumado, passavam a habitar as moradas celestiais, como membros das orquestras de luzes, com a missão especial de derramar sobre a humanidade as melodiosas virtudes: coragem, esperança e fé.
Gilvanize Pereira (médium)
Ferdinando (espírito)  Livro: Horizonte das Cotovias
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ESTRELA DE CINCO RAIOS
Quando psicografava o livro Paulo e Estevão, do Espírito Emmanuel, Francisco Cândido Xavier via, ao seu lado, um sapo feio, gorduchão, que o amedrontava muito…
No princípio, distava-lhe alguns metros. Depois, à proporção que a grande obra chegava ao fim, o sapo estava quase aos pés do médium.
Isto lhe dava um mal-estar intraduzível.
Emmanuel, observando-lhe o receio, diz-lhe:
– O sapo é um animal inofensivo, um abnegado jardineiro, que limpa os jardins dos insetos perniciosos. Não compreendo, pois, sua antipatia pelo pobre batráquio… Procure observá-lo mais de perto, com simpatia, e acabará sentindo-lhe estima.
Após ponderação justa de seu Guia, o Chico começou a ter simpatia pelo sapo, e achar-lhe até certa beleza, particular utilidade, um verdadeiro servidor.
Terminou a recepção do formoso livro e Emmanuel, completando o asserto, pondera-lhe, bondoso:
– O homem, Chico, será um dia, uma Estrela de Cinco Raios, quando possuir os pés, as mãos, e a cabeça alevantados, liberados.
Já possui três raios: as mãos e a cabeça, faltando-lhes os dois pés, os quais serão libertados quando perder a atração da Terra.
Existem, no entanto, germes, animais, seres outros, com os cinco raios voltados para baixo, para a Terra, sugando-lhe o seio, vivendo de sua vida.
Assim é o sapo, coitado, que luta intensamente para levantar um raio, pelo menos a cabeça. O boi já possui a cabeça alevantada, já que progrediu um pouco.
É preciso, pois, que o Homem sinta a graça que já guarda e lute, através dos três raios já suspensos, pela aquisição dos outros dois.
Que saiba sofrer, amar, perdoar, renunciar, até libertar-se do erro, dos vícios, das paixões, e, desta forma, terá livres os pés para transformar-se numa Estrela de Cinco Raios e participar da vida de outras Constelações, em meio das quais brilha uma Estrela Maior, que é Jesus.
Ramiro Gama                                                                                                                                                                                                Livro: Chico Xavier na Intimidade
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A SOMBRA DO BURRO
Certa vez, promovendo uma assembléia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria grega, Demóstenes viu-se apupado pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem ouvi-lo. Então, elevando a voz, disse que tinha uma historia interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou:
– Certo jovem, precisando ir de sua casa até Mégara durante o auge do verão, alugou um burro, pondo-se a caminho. Quando o sol ficou a pino, ardentíssimo, tanto o moço como o dono do animal alugado tiveram vontade de sentar-se à sombra do burro, e começaram a empurrar-se mutuamente, a fim de ficar com o lugar. Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não a sua sombra, e o outro afirmava que tendo pago o aluguel do burro, pagara também o de sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele…
A esta altura. Demóstenes levantou-se e fez menção de retirar-se. A multidão protestou, desejosa de ouvir o resto da historia. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, e encarando com firmeza o auditório, declarou, a voz trovejante:
– Atenienses! Que espécie de homens sois, que insiste em saber a historia da sombra de um burro e recusais tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito?
Só então pode fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da historia da sombra do burro.
Antônio F. Rodrigues
Livro:Antologia Espírita e Popular “Mensagens dos Mestres”
 
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NUM DOMINGO DE CALOR
Benedita Fernandes, abnegada fundadora da Associação das Senhoras Espíritas Cristãs, de Araçatuba, no Estado de São Paulo, foi convidada para uma reunião de damas consagradas à caridade, para exame de vários problemas ligados a obras de assistência. E porque se dedicava, particularmente, aos obsidiados e doentes mentais, não pôde esquivar-se.
Entretanto, a presença da conhecida missionária causava espécie.
O domingo era de imenso calor e Benedita ostentava compacto mantô de lã, apenas compreensível em tempo frio.
– Mania! – cochichava alguém, a pequena distância.
– De tanto lidar com malucos, a pobre espírita enlouqueceu… – dizia elegante senhora à companheira de poltrona, em tom confidencial.
– Isso é pura vaidade – falou outra -, ela quer parecer diferente.
– Caso de obsessão! – certa amiga lembrou em voz baixa.
Benedita, porém, opinava nos temas propostos, cheia de compreensão e de amor.
Em meio aos trabalhos, contudo, por notar agitações na assembléia, a presidente alegou que Benedita suava por todos os poros, e, em razão disso, rogou a ela tirasse o mantô por gentileza.
Benedita Fernandes, embora constrangida, obedeceu com humildade e só aí as damas presentes puderam ver que a mulher admirável, que sustentava em Araçatuba dezenas de enfermos, com o suor do próprio rosto, envergava singelo vestido de chitão com remendos enormes.
Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espírito)   Livro: Idéias e Ilustrações
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A DIVINA VISÃO
Muitos anos orara certa devota, implorando uma visão do Senhor.
Mortificava-se. Aflitivas penitências alquebraram-lhe o corpo e a alma. Exercitava não somente rigorosos jejuns. Confiava-se a difícil adestramento espiritual e entesourara no íntimo preciosas virtudes cristãs. Em verdade, a adoração impelira-a ao afastamento do mundo. Vivia segregada, quase sozinha. Mas, a humildade pura lhe constituía cristalina fonte de piedade. A oração convertera-se-lhe na vida em luz acesa. Renunciara às posses humanas. Mal se alimentava. Da janela ampla de seu alto aposento, convertido em genuflexório, fitava a amplidão azul, entre preces e evocações. Muitas vezes notava que largo rumor de vozes vinha de baixo, da via pública. Não se detinha, porém, nas tricas dos homens. Aprazia-lhe cultivar a fé sem mácula, faminta de integração com o Divino Amor.
Em muitas ocasiões, olhos lavados em lágrimas, inquiria, súplice, ao Alto:
– Mestre, quando virás?
Findo o colóquio sublime, voltava aos afazeres domésticos. Sabia consagrar-se ao bem das pessoas que lhe eram queridas. Carinhosamente distribuía a água e o pão à mesa. Em seguida, entregava-se a edificante leitura de páginas seráficas. Mentalizava o exemplo dos santos e pedia-lhes força para conduzir a própria alma ao Divino Amigo.
Milhares de dias alongaram-lhe a expectação.
Rugas enormes marcavam-lhe, agora, o rosto. A cabeleira, dantes basta e negra, começava a encanecer.
De olhos pousados no firmamento, meditava sempre, aguardando a Visita Celestial.
Certa manhã ensolarada, sopitando a emoção, viu que um ponto luminoso se formara no Espaço, crescendo… crescendo… até que se transformou na excelsa figura do Benfeitor Eterno.
O Inesquecível Amado como que lhe vinha ao encontro.
Que preciosa mercê lhe faria o Salvador? Arrebatá-la-ia ao paraíso? Enriquecê-la-ia com o milagre de santas revelações?
Extática, balbuciando comovedora súplica, reparou, no entanto, que o Mestre passou junto dela, como se lhe não percebesse a presença. Entre o desapontamento e a admiração, viu que Jesus parara mais adiante, na intimidade com os pedestres distraídos.
Incontinente, contendo a custo o coração no peito, desceu até à rua e, deslumbrada, abeirou-se dele e rogou, genuflexa:
– Senhor, digna-te receber-me por escrava fiel!… Mostra-me a tua vontade! Manda e obedecerei!…
O Embaixador Divino afagou-lhe os cabelos salpicados de neve e respondeu:
– Ajuda-me aqui e agora!… Passará, dentro em pouco, pobre menino recém-nascido. Não tem pai que o ame na Terra e nem lar que o reconforte. Na aparência, é um rebento infeliz de apagada mulher. Entretanto, é valioso trabalhador do Reino de Deus, cujo futuro nos cabe prevenir. Ajudemo-lo, bem como a tantos outros irmãos necessitados, aos quais devemos amparar com o nosso amor e dedicação.
Logo após, por mais se esforçasse, ela nada mais viu.
O Mestre como que se fundira na neblina esvoaçante…
De alma renovada, porém, aguardou o momento de servir. E, quando a infortunada mãe apareceu, sobraçando um anjinho enfermo, a serva do Cristo socorreu-a, de pronto, com alimentação adequada e roupa agasalhante.
Desde então, a devota transformada não mais esperou por Jesus, imóvel e zelosa, na janela do seu alto aposento. Depois de prece curta, descia para o trabalho à multidão desconhecida, na execução de tarefas aparentemente sem importância, fosse para lavar a ferida de um transeunte, para socorrer uma criancinha doente, ou para levar uma palavra de ânimo ou consolo.
E assim procedendo, radiante, tornou a ver, muita vezes, o Senhor que lhe sorria reconhecido…
Irmão X ( espírito )
Chico Xavier ( médium )
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O DEVOTO DESILUDIDO
O fato parece anedota, mas um amigo nos contou a pequena história que passamos para frente, assegurando que o relato se baseia na mais viva realidade.
Hemetério Rezende era um tipo de crente esquisito, fixado à idéia de paraíso.  Admitia piamente que a prece dispensava as boas obras, e que a oração ainda era o melhor meio de se forrar a qualquer esforço.
“Descansar, descansar!…”  Na cabeça dele, isso era um refrão mental incessante.  O cumprimento de mínimo dever lhe surgia à vista por atividade sacrificial e, nas poucas obrigações que exercia, acusava-se por penitente desventurado, a lamentar-se por bagatelas.  Por isso mesmo, fantasiava o “doce fazer nada” para depois da morte do corpo físico.  O reino celeste, a seu ver, constituir-se-ia de espetáculos fascinantes de permeio com manjares deliciosos…  Fontes de leite e mel, frutos e flores, a se revelarem por milagres constantes, enxameariam aqui e ali, no éden dos justos…
Nessa expectativa, Rezende largou o corpo em idade provecta, a prelibar prazeres e mais prazeres.
Com efeito, espírito desencarnado, logo após o grande transe foi atraído, de imediato, para uma colônia de criaturas desocupadas e gozadoras que lhe eram afins, e aí encontrou o padrão de vida com que sonhara: preguiça louvaminheira, a coroar-se de festas sem sentido e a empanturrar-se de pratos feitos.
Nada a construir, ninguém a auxiliar…
As semanas se sobrepunham às semanas, quando, Rezende, que se supunha no céu, passou a sentir-se castigado por terrível desencanto.  Suspirava por renovar-se e concluía que para isso lhe seria indispensável trabalhar…
Tomado de tédio e desilusão, não achava em si mesmo senão o anseio de mudança…
À face disso, esperou e esperou, e, quando se viu à frente de um dos comandantes do estranho burgo espiritual, arriscou, súplice:
– Meu amigo, meu amigo!…  Quero agir, fazer algo, melhorar-me, esquecer-me!… Peço transformação, transformação!…
– Para onde desejas ir? – indagou o interpelado, um tanto sarcástico.
– Aspiro a servir, em favor de alguém…  Nada encontro aqui para ser útil…  Por piedade, deixe-me seguir para o inferno, onde espero movimentar-me e ser diferente…
Foi então que o enigmático chefe sorriu e falou, claro:
– Hemetério, você pede para descer ao inferno, mas escute, meu caro!…  Sem responsabilidade, sem disciplina, sem trabalho, sem qualquer necessidade de praticar a abnegação, como vive agora, onde pensa você que já está? 
Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito) Livro: Estante da Vida
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 O ANJO E O MALFEITOR
O Mensageiro do Céu volveu do Alto a sombrio vale do mundo, em apoio de
centenas de criaturas mergulhadas na enfermidade e no crime, na, miséria e na ignorância, e, necessitando de concurso alheio para estender socorro urgente, começou por recorrer a publicação de apelos do Próprio Evangelho, induzindo corações, em nome do Cristo, à compaixão e a caridade.
Entretanto, porque tardasse qualquer resultado concreto, de vez que todos os habitantes do vale se comoviam com as legendas, mas não se encorajavam à menor manifestação de amparo ao próximo, o Enviado Celestial, convicto de que fora recomendado pelo Senhor a servir e não a questionar, julgou mais acertado assumir a forma de um homem e solicitar sem delongas o apoio de alguém que lhe pudesse prestar auxílio.
Materializado a preceito, procurou pela colaboração dos homens considerados mais responsáveis. Humilde e resoluto, repetia sempre o mesmo convite à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença.
O VIRTUOSO – Não posso manchar meu nome em contacto com os viciosos e transviados.
O SÁBIO – Cada qual está na colheita daquilo que semeou. Falta-me tempo para ajudar vagabundos, voluntariamente distanciados da própria restauração.
O PRUDENTE – Não posso arriscar minha posição dificilmente conquistada, na intimidade de pessoas que me prejudicariam a estima publica.
O FILANTROPO – Dou o dinheiro que seja necessário, mas de modo algum me animaria a lavar feridas de quem quer que seja.
O PREGADOR – Que diriam de mim se me vissem na companhia de criminosos?
O FILÓSOFO – Nunca desceria a semelhante infantilidade… Aspiro a alcançar as mais altas revelações do Universo. Devo estudar infinitamente… Além disso, estou cansado de saber que, se não houvesse sofrimento, ninguém se livraria do mal…
O PESQUISADOR DA VERDADE – Não sou a pessoa indicada. Caridade é capa de muitas dobras, que tanto acolhe o altruísmo quanto a fraude. Não me incomode… Procuro tão somente as realidades essenciais.
Desencantado, o Mensageiro bateu à porta de conhecido malfeitor, aliás, a pessoa menos categorizada para a tarefa, e reformulou a solicitação. O convidado, embora os desajustes íntimos, considerou, de imediato, a honra que o Senhor lhe fazia, propiciando-lhe o ensejo de operar no levantamento do bem geral, e meditou, agradecido, na Infinita Bondade que o arrancava da condenação para o favor do serviço. Não vacilou. Seguiu aquele desconhecido de maneiras fraternais que lhe pedia cooperação e entregou-se decididamente ao trabalho. Em pouco tempo, conheceu a fundo o martírio das mães desamparadas, entre a doença e a penúria, carregando órfãos de pais vivos; o pranto das viúvas relegadas à solidão; as aflições dos enfermos que esperavam a morte nas arcas de ninguém; a tragédia das crianças abandonadas; o suplício dos caluniados sem defesa; os problemas terríveis dos obsidiados sem assistência; a mágoa das vítimas dos preconceitos levados ao exagero pelo orgulho social; a angústia dos sofredores caídos em desespero pela ausência de fé…
Modificado nos mais profundos sentimentos, o ex-malfeitor consagrou-se ao alívio e à felicidade dos outros, e, percebendo necessidades e provações que não conhecia, procurou instruir-se e aperfeiçoar-se. Com quarenta anos de abnegação, adquiriu as qualidades básicas do Virtuoso, os recursos primordiais do Sábio, o equilíbrio do Prudente, as facilidades econômicas do Filantropo, a competência do Pregador, a acuidade mental do Filósofo e os altos pensamentos do Pesquisador da Verdade…
Quando largou o corpo físico, pela desencarnação – Espírito lucificado no cadinho da própria regeneração, ao calor do devotamento ao próximo -, entrou vitoriosamente no Céu, para a ascensão a outros Céus… 
Um dia, chegaram ao limiar da Esfera Superior o Virtuoso, o Sábio, o
Prudente, o Filantropo, o Pregador, o Filósofo e o Pesquisador da Verdade…
Examinados na Justiça Divina, foram considerados dignos perante as Leis do Senhor; entretanto, para o mérito de seguirem adiante, luzes acima, faltava-lhes trabalhar na seara do amor aos semelhantes… Enquanto na Terra não haviam desentranhado os tesouros que Deus lhes havia conferido em benefício dos outros Cabia-lhes, assim, o dever de regressar às lides da reencarnação, mas, porque haviam abraçado conduta respeitável no mundo, o Virtuoso receberia, na existência vindoura, mais veneração, o Sábio mais apreço, o Prudente mais serenidade, o Filantropo mais dinheiro, o Pregador mais inspiração, o Filósofo mais discernimento e o Pesquisador da Verdade mais luz… 
Observando, porém, que o malfeitor, sobejamente conhecido deles todos, vestia alva túnica resplendente, funcionando entre os agentes da Divina Justiça, começaram a discutir entre si, incapazes de reconhecer que na obra do amor qualquer filho de Deus encontra os instrumentos e caminhos da própria renovação. Desalentados, passaram a reclamar… Em nome dos companheiros, o Virtuoso aproximou-se do orientador maior que lhes revisava os interesses no Plano Espiritual e indagou:
-Venerável Juiz, por que motivo um malfeitor atravessou antes de nós, as fronteiras do Céu?!…
O magistrado, porém, abençoou-lhe a inquietação com um sorriso e informou, simplesmente.
– Serviu.
Chico Xavier ( médium )
Irmão X ( espírito )    Livro: Estante da Vida

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PEDAÇO DE ESTRELA
Quando ainda era criança, fui visitado por um anjo durante o sono.
— Vem! – Disse-me ele. – Confiante, entreguei-me em seus braços!
Em poucos instantes fomos transportados para o Firmamento!
Contemplei de perto a beleza das Estrelas! Observei que entre elas havia um espaço vazio, parecia faltar uma delas, então perguntei:
— Para onde foi a Estrela que estava aqui?
— Foi para a Terra. – Respondeu o anjo.
— Como eu não a vi por lá?
— Ela se dividiu em pedacinhos para cumprir a missão que Deus lhe confiou.
— Quem é ela? – Perguntei.
— Ela é auxiliar direta de Deus, materializando a vida na Terra!
É forte como um gigante e frágil como uma flor! No seu coração Deus colocou a força do Universo e o segredo da felicidade!
Pelas suas entranhas a vida se renova! Pelo seu amor os mundos se transformam! Progenitora das gerações, se tornou o portal da vida, acolhendo carinhosamente em seu ventre os brutos e os santos, os sábios e os ignorantes, os justos e os injustos…
Enquanto o anjo falava, fui tomado por uma sensação de queda e acordei nos braços de minha mãe!
Então compreendi! Ali mesmo, apertando-me contra o peito, estava um pedaço enorme daquela Estrela!
Nelson Moraes Do Livro: Pedaço de Estrela
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O GOLPE DE VENTO
Ali, na solidão do quarto de estudo, Joanino Garcia descerrara a grande janela, à procura de ar fresco.
Repousara minutos breves.
Agora, porém, acreditava ter chegado ao fim.
Julgara haver lido numa obra de clínica médica a própria sentença de morte.
Facilmente sugestionável, há muito vinha dando imenso trabalho ao médico.
E, não obstante espírita convicto, deixava-se levar por impressões.
Em menos de dois anos, sentira-se vitimado por sintomas diversos.
A princípio, dominado por bronquite rebelde, compulsara um livro sobre tuberculose e supusera-se viveiro dos bacilos de Koch.
Tempo e dinheiro foram gastos em exames e chapas.
Entretanto, mal não acabara de se convencer do contrário, quando, numa noite, ao sentir-se trêmulo, sob o efeito de determinada droga, começou a estudar a doença de Parkinson e foi nova luta para que lhe desanuviasse o crânio.
Joanino mostrara-se contente, por alguns dias; entretanto, uma intoxicação alterou-lhe a pele e ei-lo crente de que fora atacado pela púrpura hemorrágica, obrigando o médico e a família a difícil trabalho de exoneração mental.
Naquele instante, contudo, via-se derrotado.
Experimentando muita dor, buscara o consultório na antevéspera e o clínico amigo descobrira uma artrite reumatóide, recomendando cuidados especiais.
No grande sofá, depois de leve refeição, ao sentir pontadas relampagueantes no ombro esquerdo, tomou o livro de anotações médicas e abriu no capítulo alusivo à moléstia que lhe fora diagnosticada.
Antes de iniciar a leitura, levantou-se com dificuldade, para um gole d’água, tentando aliviar as agulhadas nervosas, e não viu que o vento virara as folhas do volume.
Voltando, sobressaltado leu nas primeiras linhas  da página:
– “A moléstia assume a forma de dor pungente e agonizante.  Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte.  Sofrimento agudo e invencível.  A dor começa no ombro esquerdo a refletir-se na superfície flexora do braço esquerdo até às pontas dos dedos médios”.
Joanino rendeu-se.
Quis gritar, pedir socorro, mas “a dor agonizante”, ali referida, crescia assustadora.
Pensou na mulher e nos quatro filhinhos.
Afligia-se como que sufocado.
Não podendo resistir, por mais tempo, aos próprios pensamentos concentrados na idéia da desencarnação, rendeu-se à morte.
Despertando, porém, fora do corpo de carne, afogado em preocupações, ao pé dos familiares em chorosa gritaria, viu o benfeitor espiritual que velava habitualmente por ele.
O amigo abraçou-o emocionado, e falou:
– É lamentável que você tenha vindo antes do tempo…
– Como assim? – respondeu Garcia, arrasado. – Li os sintomas derradeiros de minha enfermidade.
– Houve engano – explicou o instrutor – os apontamentos do livro reportavam-se à angina de peito e não à artrite reumatóide como a sua leitura fez supor.  A corrente de ar virou a página do livro.  Você possuía, em verdade, um processo anginoso, mas com catorze anos de sobrevida…  Entretanto, com o peso de sua tensão mental…
Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento.
Hilário Silva (espírito)
Chico Xavier (médium)  Livro: Idéias e Ilustrações
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LIÇÃO ESPÍRITA
Internara a filhinha num Lar de crianças sem pais.
Vendendo ilusões, fora antes vendida a um bordel, quando ludibriada nos sentimentos de menina-moça.
Comprometera-se não visitar a filha, a fim de fazê-la ignorar a origem. Desejava-a feliz, fosse educada, que se lhe desse uma profissão digna e despediu-se, emocionada, de alma amarfanhada.
Quatro anos depois, sucumbindo ao peso de cruel enfermidade, buscou rever a filha. Apresentou-se como se lhe fora tia. A pequena, porém, chamou-a “mamãe”.
Sem ocultar as lágrimas, reiterou a condição de tia, cuja irmã desencarnara em situação dolorosa…
Sentia-se desencarnar e informara ao diligente benfeitor da filha que eram poucos os seus dias na Terra.
Suplicou desvelado carinho para a menina.
Recusou-se receber qualquer assistência e partiu…
Um ano após, volveu, renovada.
– Gostaria que o senhor me ouvisse – solicitou.
E narrou que a enfermidade psíquica de uma amiga de infortúnio levara-as a um Centro Espírita, que funcionava no bairro de angústias, onde viviam.
Encontrara ali amparo, assistência moral, orientação.
A pesado sacrifício, começou a frequentar a Casa. À medida que recobrava a saúde, oportunamente, deparou-se naquele recinto com o homem que a infelicitara.
Dominada pelo ódio, que lhe irrompeu intempestivo, acusou-o diante de todos, apontando-o como o destroçador da sua vida…
– É verdade! – Retrucara o acusado – Naquele tempo, eu era igualmente um enfermo… do espírito.
E rogou-lhe perdão.
Ela se comoveu. Afinal, sob o ódio havia o amor magoado.
Tornaram-se amigos.
Há pouco tempo ele lhe prometera matrimônio.
Dissera que a amava.
Aceitara-o.
Ele retirou-a do “comércio carnal” em que vivia e alugara um apartamento onde a hospedou com dignidade.
Respeitavam-se.
Casaram-se logo depois.
– Seria possível, agora, conduzir a filha para o lar? – Indagou, ansiosa.
– Sem dúvida – concordou o amigo.
Prometeu, então, retornar depois, em companhia do esposo.
Ao fim da semana, jovial, fazia-se acompanhar do cônjuge.
Comprovaram a situação nova: moral e legal.
Quando a filhinha foi abraçá-la e o dirigente do Lar explicou que se tratava da sua genitora, respondeu a menina:
– Eu sabia! Orava a Jesus para que Ele me trouxesse minha mamãe de volta.
Reabilitados, agora abrem as mãos da caridade aos que padecem, laborando no santuário onde receberam a medicação espírita para a paz.
A lição espírita promove o homem e reabilita-o.
Só é legítima a crença que soergue e enobrece o crente.
O Espiritismo, por tal razão, é o Consolador, pois que, enxugando as lágrimas, liberta o que chora, levantando-o e dignificando-o, a fim de que não volte à furna do desespero donde se evadiu.
Divaldo P. Franco (médium)
Ignotus (espírito) Livro: Espelho D’álma
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CONSCIÊNCIAS
Ao rei Tajuan, do Iémene, numa audiência rotineira, foram trazidos cinco malfeitores que lhe haviam requerido proteção e misericórdia.
Seguido de guardas vigilantes, aproximou-se o primeiro e rogou em lágrimas, após beijar o escabelo em que o soberano punha os pés:
– Perdão, ó rei! Juro pelo Altíssimo que não matei com intenção… Comecei a discutir com o ladrão de meus cavalos e, em certo momento, senti a cabeça turva… Rolei no chão sobre o meu contendor e, quando me dominei, o gatuno estava morto! Piedade! Piedade para mim, que não tive força de governar o coração!… Só agora, na prisão, ouvi a palavra de um homem que repetia as lições do Profeta… Só agora, compreendo que errei!
..O soberano chamou o vizir que o acompanha e determinou que entregassem ao réu aos cuidados de um médico, a fim que fosse julgado com indulgência, depois do tratamento preciso.
Adiantou-se o segundo e clamou, submisso:
– Glorificado seja Alá, em vossa presença, ó rei generoso! Compadecei-vos de mim, que sou ignorante e mau! Jamais pude ler uma só frase dos Sagrados Preceitos e somente agora, depois de embriagar-me e espancar meu pai, inconscientemente, é que vim a saber que o homem não deve crescer como as bestas do campo!…
O rei fitou-o, compassivo, e determinou que o denunciado fosse prontamente admitido à escola.
Veio o terceiro e implorou:
– Clemência para mim, ó representante de Alá… Sou analfabeto. Desde a infância, trabalho no mercado para sustentar meus avós paralíticos… Observando que vários negociantes obtinham maiores lucros, roubando nos pesos, não hesitei segui-lhes os maus exemplos. Juro pela memória de meus pais que não sabia o que andava fazendo…
Tajuan, complacente, recomendou medidas para que o desventurado permanecesse, largo tempo, sob as lições de um guia espiritual.
O quarto réu abeirou-se do estrado real e suplicou:
– Perdão, perdão ó rei justo! Assaltei a casa do avarento Aquibar, porque não mais suportava a penúria… Tenho mulher e nove filhos famintos e enfermos!… Sou um cão batido pelo sofrimento… Cresci na areia, sem ninguém que me quisesse… Sei que Alá existe, porque é impossível haja sol e caia chuva sem um pai que nos olhe do céu, mas nunca aprendi a soletrar o nome do Eterno!…
Extremamente comovido, Tajuan solicitou ao ministro expedisse socorro urgente à choupana do infeliz e ordenou que um mestre o instruísse nos deveres do homem de bem, antes que a falta subisse a mais ampla consideração dos juizes.
Por último, apresentou-se um homem de porte orgulhoso, que fez a reverência de estilo e solicitou:
– Sapientíssimo Rei, peço a vossa benevolência para mim, que tive a desventura de furtar um adereço de brilhantes, na festa de Joanan ben Kisma, judeu rico e preguiçoso, conhecido inimigo de nossa nação… Conheço as leis que nos regem e acato os ensinamentos do Profeta, mas não pude resistir à tentação de levar comigo uma jóia do usurário que as possui aos montões…
Benevolência, ó Rei Tajuan! Rogo a vossa benevolência!…
O soberano, porém, franziu a testa, contrariado e, com assombro de todos os circunstantes, determinou que o árabe culto recebesse, atado a um poste, trinta e seis chicotadas, ali mesmo, diante de seus olhos, para, em seguida, ser trancafiado no cárcere por dois anos.
– Pela glória de Alá, ó rei sábio! – exclamou, confundido, o vizir a cuja autoridade se rogara auxílio para o distinto acusado – como interpretar a vossa munificência? Destes medicação a um criminoso, escola a um ébrio e socorro material e moral a dois ladrões, e indicais pena assim tão cruel a um filho de nosso povo que venera o Profeta, unicamente pelo fato de haver desaparecido uma jóia dos tesouros de um agiota desprezível?
– Por isso mesmo, ó vizir, por isso mesmo! – falou Tajuan, desencantado – por saber tanto, é mais responsável… Os quatro primeiros eram ignorantes e todos os ignorantes são infelizes, mas o quinto culpado é um homem finamente instruído e sabe perfeitamente o que deve fazer!
*Há quem afirme que nós, os que nos fizemos espíritas, encarnados ou desencarnados, sofremos mais que os nossos semelhantes, carregando aparentemente cruzes mais pesadas; no entanto, nós os espíritas, conhecemos as leis que nos governam os destinos e, por essa razão, mais responsáveis somos pelos nossos atos.
Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito) Livro: Relatos da Vida
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sexta-feira, 3 de junho de 2016

A VISÃO MÉDICO -ESPÍRITA DO ABORTO

A Visão Médico-Espírita do Aborto

Por Érika Silveira
Devido à complexidade do tema aborto, é fundamental aliar a abordagem científica a espiritual. Para tanto, entrevistamos a dra. Marlene Nobre, médica ginecologista, presidente do Grupo Espírita Cairbar Schutel e da AME (Associação Médico-Espírita) do Brasil e Internacional. É também autora dos livros: Lições de SabedoriaA Obsessão e Suas MáscarasNossa Vida no AlémA Alma da Matéria e O Clamor da Vida. Este último foi escrito com o propósito de ressaltar os argumentos científicos contra o aborto e propiciar ao público uma compreensão de que a vida se expande muito mais além do que a formação de um feto.
Como a medicina aliada à espiritualidade vê a questão do aborto?
Como é lógico, os fundamentos da medicina espírita são os mesmos do espiritismo, sendo assim, a questão 358 de O Livro dos Espíritos deixa clara a questão do aborto: é um crime.
Esse foi um dos temas abordados no MEDINESP 2003, inclusive com uma carta publicada. O que dizia essa carta?
A Carta de São Paulo exprime compromissos bioéticos dos membros das Associações Médico-Espíritas do Brasil e foi elaborada pelos participantes da Assembléia Geral, realizada durante o MEDINESP. Entre os vários compromissos nela exarados, os médicos das AMEs comprometem-se a lutar não apenas contra a eutanásia e o aborto, mas também, contra a administração da chamada “pílula do dia seguinte”, que é abortiva. Por exemplo, quando forçado a receitar a “pílula do dia seguinte”, nos ambulatórios públicos, o médico espírita não o faz, para isso, lança mão de um direito legítimo, reconhecido pelo Código de Ética Médica, que é o de ser fiel à sua própria consciência. Do mesmo modo, o anestesista espírita lança mão desse mesmo direito para não participar das equipes de abortamento legal já existentes em alguns hospitais do país.
Existem campanhas contra o aborto promovidas pela AME?
A AME-Paraná, sob a presidência fraterna e idealista do dr. Laércio Furlan, tem uma campanha permanente: Vida, sim! Nela, todos os membros estão envolvidos e visa, principalmente, o esclarecimento de adolescentes e jovens, o apoio para que a gestante leve a gravidez até o fim e o aconselhamento sempre disponível, baseado na fraternidade. A AME-São Paulo participou ativamente de campanha contra o aborto, em 1994, juntamente com a União das Sociedades Espíritas e Federação Espírita do Estado de S.Paulo, quando o Congresso Nacional se movimentava em favor da aprovação do aborto, o que felizmente não se concretizou. Enfim, todas as AMEs estão engajadas nessa luta, que tem características próprias em cada Estado.
Quais são os países que mais se preocupam com o aborto e os países onde se comete o maior número de abortos?
Há muito poucos países no mundo onde o aborto ainda não é legal. Estados Unidos e Rússia são os que fazem o maior número de abortos no mundo.
Em relação ao Brasil, há algum número estatístico sobre os abortos cometidos?
Nenhuma estatística brasileira, a esse respeito, é confiável. O que se faz aqui no Brasil é manipular esses números duvidosos com a finalidade de se legalizar o aborto, alegando-se que a mulher tem o direito de fazê-lo em condições técnicas adequadas. Os que assim agem pretendem que o Estado esteja devidamente aparelhado para institucionalizar a pena de morte para inocentes.
Explique em linhas gerais quais são as conseqüências do aborto?
O aborto traz conseqüências orgânicas, psicológicas e espirituais, nesta existência e na outra, para a mulher que o provoca, para o companheiro que não a apóia na gravidez e para a equipe de saúde que o executa. Não há como negar, porém, que as conseqüências são mais graves para a mulher, porque, desde tempos imemoriais, ela traz no seu psiquismo o compromisso com os entezinhos que necessitam vir ao mundo para progredir. Essas conseqüências tomam o nome de obsessão, depressão, disfunções e doenças orgânicas do aparelho genital, etc.
Por que resolveu publicar um livro sobre o aborto?
A luta contra o aborto está intimamente ligada a minha convicção como espírito imortal e a minha tarefa como médica.
Enquanto escrevia o livro, tive confirmação de que estava absolutamente certa, quando me deparei com a estatística de um dos maiores geneticistas do mundo, Steve Jones, são 90 milhões de recém-nascidos, por ano, no mundo, contra 60 milhões de abortos, no mesmo período, ou seja, em cinco anos, o número de mortos por aborto é maior do que o morticínio ocorrido nos seis anos da Segunda Guerra Mundial.
O que aborda o livro?
O Clamor da Vida é um livro de conceitos. Com ele, visamos, sobretudo, discutir os fundamentos da Bioética Espírita. Ao emitirmos, por exemplo, o conceito e o significado da própria vida, procuramos lançar luzes acerca do que é lícito e do que não é lícito na atitude bioética. Com isso, evidenciamos o valor da pessoa humana e a tentativa sub-reptícia dos que desejam reduzi- la ao estado de coisa, com a conseqüente perda de sua dignidade. Com esses conceitos, chegamos facilmente à conclusão de que a vida é um bem outorgado e que nem a mulher, nem o homem, nem o Estado, tem o direito de dispor dela.
Na sua opinião o movimento espírita deveria enfatizar mais a questão do aborto, ou seja, promover uma campanha forte e maciça?
Creio que essa campanha forte e maciça deverá ocorrer toda vez que houver real ameaça de legalização do aborto em nosso país. Enquanto isso não ocorre, e esperamos em Deus não venha a ocorrer, deve-se continuar a falar contra o aborto, como temos feito em nossas atividades normais, conforme se faça necessário, sobretudo, como ação preventiva.
Gostaria de deixar alguma mensagem de reflexão sobre o assunto?
Cremos, firmemente, que os seres humanos vão eliminar, de forma definitiva, o infanticídio e o aborto da face da Terra, porque a evolução espiritual é inapelável. Sob os ares benfazejos do progresso, os seres humanos vão elevar o padrão do seu comportamento moral, de modo a banir toda forma de violência, inclusive essa, que é uma das mais cruéis - a do aborto - para viverem, em toda plenitude, o sentimento sublime do Amor, em todas as latitudes do Planeta.
Extraído da Revista Cristã de Espiritismo, nº 26, páginas 8-9.

ABORTO

Aborto

De todos os institutos sociais existentes na Terra, a família é o mais importante, do ponto de vista dos alicerces morais que regem a vida.
É pela conjunção sexual entre o homem e a mulher que a Humanidade se perpetua no Planeta; em virtude disso, entre pais e filhos residem os mecanismos da sobrevivência humana, quanto à forma física, na face do orbe.
Fácil entender que é assim justamente que nós, os Espíritos eternos, atendendo aos impositivos do progresso, nos revezamos na arena do mundo, ora envergando a posição de pais, ora desempenhando o papel de filhos, aprendendo, gradativamente, na carteira do corpo carnal, as lições profundas do amor - do amor que nos soerguerá, um dia, em definitivo, da Terra para os Céus.
Com semelhantes notas, objetivamos tão-só destacar a expressão calamitosa do aborto criminoso, praticado exclusivamente pela fuga ao dever.
Habitualmente - nunca sempre - somos nós mesmos quem planifica a formação da família, antes do renascimento terrestre [...].
[...] Se, porém, quando instalados na Terra, anestesiamos a consciência, expulsando-os de nossa companhia, a pretexto de resguardar o próprio conforto, não lhes podemos prever as reações negativas e, então, muitos dos associados de nossos erros de outras épocas, ontem convertidos, no plano espiritual, em amigos potenciais, à custa das nossas promessas de compreensão e de auxílio, fazem-se hoje [...] inimigos recalcados que se nos entranham à vida íntima com tal expressão de desencanto e azedume que, a rigor, nos infundem mais sofrimento e aflição que se estivessem conosco em plena experiência física, na condição de filhos-problemas, impondo-nos trabalho e inquietação.
Admitimos seja suficiente breve meditação, em torno do aborto delituoso, para reconhecermos nele um dos grandes fornecedores das moléstias de etiologia obscura e das obsessões catalogáveis na patologia da mente, ocupando vastos departamentos de hospitais e prisões.
XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Pelo Espírito Emmanuel. FEB.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Somewhere over the Rainbow - Israel "IZ" Kamakawiwoole TRADUÇÃO

O ACHADO


O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :O Achado
Autor:Waldo Vieira (médium)
Hilário Silva (espírito)
Fonte:Livro: Almas em Desfile
MENSAGENS
     
I
Viajantes, seguindo, apresentavam bilhetes. Viajantes, chegando, mostravam aspectos bizarros. Costumes de caroá, vestidos de algodão leve, grossas blusas de lã e capas gaúchas.
Senhoras de passo lento surgiam, entremostrando saúde e alegria. Jovens risonhas caminhavam com a desenvoltura de modelos em passarela.
Perdido na multidão do grande aeroporto, Marcelino Nunes divagava, contemplando as hélices dos aviões de grande porte.
Relanceando o olhar em torno, via, encantado, o ambiente distinto.
O dinheiro corria em células de mil.
Ninguém discutia a cobrança do excesso de malas, nem regateava a conta dos “souvenirs”, vendidos a preço de escorchar.
Marcelino sonhava...
Queria ser como aqueles forasteiros que iam e vinham pelas alturas.
Desejava viajar, viajar, rotulando bagagem com etiquetas de hotéis dos diferentes paises.
“Turista importante, vida ideal” – pensava.
Mas para isso precisava de dinheiro, muito dinheiro.
Viera do interior buscando melhoria financeira na capital; entretanto, só encontrara um emprego de ninharia, na conceituação dele mesmo.
Nada além de balconista numa loja de novidades.
- “Marcelino, desça aquela taça da prateleira!”.
- “Nunes, tenho pressa. Faça o favor”.
Cansara-se de ouvir fregueses insípidos.
Enfadara-se.
E atingia os trinta anos, sem que lhe fosse possível coisa melhor.
O ordenado mal dava para pensão e condução.
Preocupado, escrevia para a mãezinha viúva, relatando-lhe os problemas. Entretanto, a “velha”, na titulação com que lhe recordava o carinho, era espírita militante, e respondia, serena:
- “Meu filho, dever correto é degrau para a verdadeira felicidade”.
- “A lei de Deus premia a perseverança no bem”.
- “Não queira facilidades sem trabalho e suor”.
- “Humildade, meu filho, mais humildade!”.
Cada missiva materna era um apelo à energia moral.
Não reclamava; contudo, aborrecia-se.
- Ora essa! – costumava falar de si para consigo. – Pobre mãe! Sempre conselhos! Os espíritas parecem atacados de indigestão filosófica...
Enquanto ruminava os seus problemas, a pequena multidão, no grande aeroporto, exibia brasões.
Carteiras recheadas. Colares ricos. Alfinetes encastoados de pérolas. Pulseira de ouro. Relógios caríssimos.
- Ah! Se eu tivesse dinheiro, mandava esta vida às favas – dizia Nunes baixinho...
II
Descontente, Marcelino mastigava o cigarro, indo e vindo de um lado para outro.
Inquieto.
Solitário na turba.
Sedento de companhia.
Depois de longos minutos de insatisfação, sentou-se enquanto aguardava o ônibus.
No banco, apenas ele e um homem de bengala branca. Cego, de semblante sereno, aguardando pessoa amiga.
Destacando-se ao alcance da mão, viu algo.
Um pacote bem feito em papel pardo.
Cigarros? Quem sabe?
Havia visto, há tempo, um grande pacote de cigarros norte-americanos acondicionados daquela maneira.
Marcelino esperou.
Um moço veio e deu o braço ao companheiro de banco, retirando-se os dois.
A sós, não teve qualquer dúvida.
Não se vendo observado, arrebatou o pacote com naturalidade e saiu.
- Posso fumar alguns dias, sem qualquer preocupação – refletia.
Afastou-se e, logo após, tomando o ônibus, retornou ao seu quarto humilde.
A sós, abriu cuidadosamente o embrulho e, oh! Surpresa!
Ali estavam cédulas de mil cruzeiros, novíssimas.
Deviam ter saído de casa bancária na véspera.
Marcelino contou o primeiro lote, retirando a cinta elástica.
Cem notas! E, constando o todo de vinte maços, estava na posse de dois milhões de cruzeiros.
Trancou-se, cauteloso, arfando de emoção.
A co0nsciencia recomendava-lhe buscasse o dono, anunciando o achado.
Mas... por quê?
- Ajudaria a mãezinha cansada – argumentava -, seria útil a muitos amigos.
Sentia-se atrapalhado.
Via-se agora inseguro.
Não tinha lugar para tanto dinheiro.
Entretanto, o aposento era servido de boa chave e tinha, a mesa, gaveta sólida.
Invadido por pensamentos com que não contava, arquitetou a renovação.
Deixaria o emprego modesto.
Formaria novos hábitos.
Visitaria os familiares no interior, melhorando-lhes a sorte.
Em seguida, teria o seu próprio estabelecimento comercial.
Debalde tentou repousar naquela tarde de domingo.
A noite, buscou um cinema; contudo, não esperou pelo fim do filme.
A fortuna inesperada furtara-lhe a paz de espírito.
No dia seguinte, comunicou ao chefe a retirada e pedia lhe fosse dispensada qualquer obrigação de aviso prévio.
O gerente aconselhou calma; entretanto, respondeu agressivo.
Disse que a loja lhe fora cárcere.
Não tencionava mais pôr os pés ali.
Queria começar vida nova.
Despediu-se da pensão pobre, ofendendo a dona da casa, referindo-se a pulgas indomáveis e pratos malfeitos. Logo após, instalou-se em hotel.
Gastara quatro dias em mudanças e andanças.
Resolvendo buscar o interior no dia seguinte, foi a uma grande loja para compras.
Dando-se ares de importância, pediu a preparação de várias peças, em papel especial para presentes.
As aquisições montaram em onze mil e seiscentos cruzeiros.
Marcelino entregou doze notas, e o moço, gentil, na caixa, pedindo para que aguardasse o troco, afastou-se, solicitando um momentinho...
Alguns minutos passaram lentos, quando um agente policial chegou de improviso e deu-lhe ordem de prisão.
Em meia hora, o quarto de hotel passou por impiedosa revista.
O dinheiro encontrado era, todo ele, em série completa de notas falsas.
Recolhido ao distrito policial, o pobre Nunes chorava em desespero...

A CURA COMPLEXA

 
Título :A Cura Complexa
Autor:Chico Xavier (médium)
Humberto de Campos - Irmão X (espírito)
Fonte:Livro: Reportagens de Além-Túmulo
MENSAGENS
     
Aquele lar fundamentado em bases sólidas de amor e trabalho, desde algum tempo parecia invadido por tempestades incessantes de dor.
Feliciano Azevedo, na idade madura, era iniciado nos mistérios da lágrima, envolvido em terríveis tormentas de desventura. A filha amorosa, que resumia as esperanças paternas, perdera o equilíbrio mental logo após um curso escolar brilhante, anulando, assim, alegres expectativas familiares. A esposa sensível baixara ao hospital, com a saúde abalada para sempre.
Desarvorado, qual viajante cujo barco vai impelido pelas ondas revoltas, antevendo os momentos do naufrágio cruel, Feliciano agarrava0se à fé em Deus, em supremo desespero do coração. As economias fartas de outro tempo dissiparam-se em poucos meses. Agora, dividia as horas entre o hospital e o manicômio. Os empréstimos asfixiavam-no. Quando a situação assumia aspectos ainda mais graves, eis que surge inesperadamente um amigo, aconselhando:
- Ora, Feliciano, por que não tenta o Espiritismo? É possível que o caso da jovem seja simples obsessão. Os benfeitores do Além, quando podem, costumam ligar-nos o coração ignorante com a Fonte infinita das bênçãos. Experimente...
Feliciano ponderou a advertência amiga e deliberou atender sem delonga.
Na noite desse mesmo dia, foi à casa da família Macedo, que mantinha um grupo espiritista muito íntimo.
Recebido com muita simpatia, pela sinceridade de suas expressões, ouviu por intermédio de jovem sensitiva a palavra de prestativo amigo da Espiritualidade, que lhe falou mais ou menos nestes termos:
- Meu irmão, não olvides a coragem para o êxito necessário. A passagem pela erra pode ser um aprendizado angustioso, mas é parte de nossa marcha para a sabedoria infinita. No curso dos maiores infortúnios, lembra que Deus é Pai bondoso e justo. O caso da tua filhinha procede de tenaz perseguição, do plano invisível. Irmão nosso, perturbado e cego, há lançado amarguras na tua estrada dos tempos que correm. Não desesperes, porém. É razoável que a Justiça trabalhe, enquanto houver necessidade de reparações. Contribuiremos para que se aclarem os horizontes. Esforça-te, pois, conosco, atendendo à Providência Divina.
Aquelas palavras, pronunciadas com imensa ternura, lhe balsamizaram o coração entristecido. Tinha a impressão de que imergia o espírito sequioso em fonte cristalina, ardentemente esperada no deserto da sua angústia. Os amigos presentes incumbiram-se de lhe consolidar as esperanças. O chefe da casa relatou difícil experiência doméstica, em que se valera do socorro espiritista. Cada companheiro trouxe à baila o seu caso pessoal, revelando a excelência do auxílio, oriundo das mãos intangíveis dos desencarnados.
Feliciano exultava. Pela primeira vez, depois de longos e laboriosos tempos de luta, dormiu sossegadamente, empolgado por singulares pensamentos de paz.
Os Macedos, aliando-se à boa-vontade de outros irmãos, começaram a prolongada série de reuniões íntimas, destinadas ao esclarecimento do infortunado obsessor, consagrando, neste mister, as suas melhores energias. Três vezes por semana reuniam-se os benfeitores encarnados. O pai e esposo aflito mantinha-se firme na sua fé, presente a todos os trabalhos. O irmão perturbado, mal se pronunciava a prece inicial, incorporava-se prestemente, apossando-se por completo do aparelho mediúnico. Bertoldo, o diretor da reduzida assembléia, falava-lhe com sincera dedicação fraternal e, contudo, o infeliz parecia aferrado a sinistros propósitos.
- Este homem é um criminoso – apontava o Feliciano, com sarcasmo -, em outro tempo destruiu-me o lar, escarnecendo das minhas sagradas aspirações familiares. Companheiro desleal e ingrato, esqueceu a mão amiga que o erguera da miserável condição de servo ínfimo!...
Em com lágrimas de ódio continuava, depois de mordentes acusações:
- Malvado!... Monstro! Seguirei no teu encalço, onde quer que te escondas!...
- Mas, meu irmão – replicava o orientador, bondosamente -, quem de nós outros estará sem erros? Todos procedemos de um passado sombrio e delituoso. Na longa jornada, por trás de nossos passos, há rios de lama e sangue, que precisamos purificar com a tolerância recíproca. Comecemos novo dia de fraternidade. Deus, que é Pai e Senhor Supremo do Universo, renova incessantemente as nossas oportunidades de serviço e edificação. Se Deus atende assim, que razão nos assiste para eternizar a vingança nos caminhos da vida? Esquece o mal, meu amigo. Contempla o nosso Feliciano humilhado, torturado, vencido!... Não te doerá vê-lo assim, de cabelos nevados prematuramente? Que prazer poderás sentir martirizando uma pobre mãe no hospital e uma criança no manicômio? Sejam quais forem as tuias mágoas de existências anteriores, olvida o mal e perdoa...
O diretor amorável dizia essas palavras, de olhos molhados, convencido de que esclarecer não é ordenar, e que doutrinar não significa impor violentamente. Aquele generoso Bertoldo não ignorava a extensão das misérias, nas experiências humanas, sabia conjugar os próprios conhecimentos, ofertando-os ao próximo como ramalhetes de flores luminosas. O perseguidor chorava, entre o ódio e o desespero, e a reunião terminava sempre num mar de emoções reconfortantes e profundos ensinamentos, porque os companheiros ali se uniam, antes de tudo, nos elos cariciosos da humildade e do amor. Ao fim de alguns meses, o infeliz cedia terreno, demonstrando-se transformado à luz do Evangelho do Cristo, não pelas palavras ouvidas, mas pela vibração do sentimento coletivo.
Em breve, a esposa e a filha, convalescentes, regressavam ao ambiente doméstico. A pequena família não podia traduzir o intenso júbilo. Trazidas igualmente aos trabalhos espirituais, mãe e filha pareciam banhadas por ondas reconfortantes de energia nova. O antigo obsessor convertera-se em benfeitor solícito. A tranqüilidade agora revelava maravilhoso conteúdo de fé e alegria.
Decorridos seis meses sobre a nova situação, eis que o lar de Feliciano parece envolvido em novas tormentas. A precariedade de recursos financeiros levara o chefe da casa a experimentar diversos labores sem resultados favoráveis. Todos os objetos valiosos foram levados às casas de penhor e, por fim, após difícil experiência numa oficina de acessórios, Feliciano cai no leito, desolado e paralítico. Em vão, recorre a filha a relações prestigiosas em busca de colocação condigna. Todas as portas se apresentam impenetráveis. Nos concursos a que compareceu, esperançosa, era invariavelmente mal classificada. Diariamente, à noitinha, voltava a casa, desanimada, pernas trôpegas e olhos inchados de chorar. Enquanto isso, a genitora precisava agarrar-se à máquina de costura, para que lhes não faltasse o pão cotidiano.
A pequena família começou a peregrinar de rua em rua, pela carência de dinheiro com que pagar o aluguel da casa.
A esse tempo, Feliciano voltou ao país sombrio do desespero. Os generosos irmãos na fé buscavam-lhe a companhia, semanalmente, reunindo-se em preces, no seu aposento de dor. Por maior que fosse, porém, o carinho fraterno, o enfermo não mais se livrou de angustioso abatimento. Os pensamentos lhe erravam pesadamente da queixa incessante para o desalento sem limites. Por que motivo lhe fora reservado um cálice tão amargo? Não aceitara a fé? Não se esclarecera o obsessor terrível? Assim se mantinha ele mergulhado num mar de inquirições dolorosas.
Após dois anos pesados de infortúnio, valeu-se do momento em que se reuniam os amigos, no quarto estreito, para indagar ao sábio Instrutor espiritual a causa dos longos padecimentos. O benfeitor invisível, procedendo delicadamente, à maneira de alguém que, embora percebendo uma ferida, não lhe acusa a existência, esclareceu com intimidade e doçura.
- Não percas a coragem, meu amigo. A fonte das bênçãos divinas não estanca a distribuição dos benefícios. Resigna-te na dor, como quem lhe conhece as utilidades sublimes. O catre do sofrimento é um barco de salvação, nas tempestades do mundo, para o crente identificado com a própria fé. Usa a provação como termômetro da confiança em Deus e não desanimes!...
O doente estava comovido, mas insatisfeito. Incapaz de perceber a sutileza fraternal do comunicante, voltou a considerar:
- Agradeço as vossas palavras confortadoras, mas não me posso furtar a dúvidas amargosas. Não era o sofrimento de minha família um simples caso de obsessão? Não trabalhamos-, meses a fio, a fim de esclarecer o irmão perturbado? Não se tornou ele nosso amigo e colaborador? Todavia, tenho mesmo a impressa de que nossos tormentos se agravaram pesadamente. Minha mulher saiu do hospital para internar-se na miséria mais dura; minha filha regressou do hospício pata transformar-se em pedinte sem esperança...
Engasgado de pranto, fez longa pausa e continuou a dizer:
- Como chegar a uma conclusão aceitável? Não estamos curados da obsessão, meu amigo?
O benfeitor espiritual, incorporado na jovem médium, levantou-se e, denunciando a imensa sabedoria que lhe brilhava nalma, acentuou depois de afagar o doente com um gesto de amor:
- Feliciano, é verdade que tens sofrido muito, mas não esqueças que os amigos encarnados e desencarnados te ofereceram andaimes; as dificuldades e padecimentos te proporcionaram pedras; a fé carreou cimento divino para o teu coração, entretanto, a construção é tua. Nunca reclames ante a justiça de Deus, porque, se estás curado da obsessão, ainda não saldaste as próprias dívidas.
Foi então que o enfermo revelou novo brilho no olhar e, enquanto os companheiros choravam de alegria com o profundo ensinamento, Feliciano Azevedo beijou a mão que o sábio mentor lhe oferecia, e baixou humildemente a cabeça.